Aula inaugural do turno da noite reforçou o papel das escolas e universidades públicas e gratuitas para a formação de cientistas

 Nair Rabelo -


Duilia de Mello é professora de Física e Astronomia e vice-reitora da Universidade Católica da América, em Washington DC, nos Estados Unidos. Foto: André Gomes/Secom UnB

 

 

Filmes de ficção científica inspiraram Duilia de Mello, "a mulher das estrelas", como é conhecida, a interessar-se pela Astrofísica. Nascida na década 1960, iniciou sua jornada acadêmica nos anos 1980, e estampa no currículo nada menos que o feito de ter descoberto sozinha uma supernova (um evento astronômico que corresponde aos momentos finais de uma estrela), a SD1997D, em 1997.

 

A professora e cientista compartilhou momentos de sua jornada acadêmica na noite desta quinta-feira (15), no #InspiraUnB, a aula inaugural do turno da noite. Lembrou dos tempos de juventude, quando era estudante do ensino público. Hoje, Duilia é professora de Física e Astronomia, divulgadora científica, e vice-reitora da Universidade Católica da América, em Washington DC, nos Estados Unidos. É também colaboradora da Nasa, a Agência Espacial Norte-Americana. Recentemente, publicou o artigo Mulher das estrelas: 25 anos desvendando o universo na edição nº 22 da revista Darcy. 

 

O evento ocorreu no auditório da ADUnB e contou com a presença de calouros, ávidos para conhecer mais sobre a trajetória da astrônoma. Foi o caso dos amigos Antônia Lobo, 21, e Geovane de Barros, 25, que cursam Geologia na UnB. Calouro no curso, Geovane conta que se interessou pela palestra pela trajetória acadêmica internacional de Duilia. “Também tenho interesse em seguir uma carreira internacional”, contou. Além disso, o estudante destacou o fato de Duilia ser uma pesquisadora mulher, em um cenário em que a representatividade feminina na ciência ainda enfrenta desafios.

Duilia Melo, a reitora Márcia Abrahão, vice-reitor Enrique Huelva deram as boas-vindas aos calouros no turno noturno
Duilia de Mello, a reitora da UnB Márcia Abrahão e o vice-reitor Enrique Huelva deram as boas-vindas aos calouros no turno noturno. Foto: André Gomes/Secom UnB

 

O CÉU NÃO É O LIMITE – Duilia de Mello destacou que a carreira acadêmica só foi possível graças ao ensino público e às bolsas de incentivo à pesquisa. “Estudei em tudo público no Brasil: graduação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestrado no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), doutorado na Universidade Estadual de São Paulo (USP). E, se não fosse com bolsa, não iria fazer nada, pois minha família não teria como me sustentar”, explicou.

 

O seu fascínio por galáxias a levou a estudar Astronomia na UFRJ. Era o ano de 1981 e Duilia tinha 18 anos. No mestrado, deu seguimento às pesquisas sobre galáxias em colisão, mas, no doutorado, resolveu mudar os rumos do objeto de pesquisa: “É preciso coragem para mudar”, comentou. E foi por isso que chegou no pós-doutorado no Chile, em 1997, para estudar no Observatório Interamericano de Cerro Tololo, quando descobriu a supernova.

 

“Supernovas são importantes por que todos os elementos químicos que existem surgem das estrelas, da conjunção de hélio e hidrogênio. Quando uma estrela morre, elementos químicos se esparramam pelo cosmos”, explicou.

 

A carreira ainda a levou a trabalhar no instituto do célebre telescópio espacial Hubble nos Estados Unidos. E, desse episódio, Duilia deixou dois conselhos para os presentes: “Façam network e tenham cara de pau – o máximo que vai acontecer é um não”. Foi assim que conseguiu participar da equipe de pesquisas do telescópio mais famoso do mundo.

 

“As ciências espaciais nos fazem inovar”, disse. A astrônoma lembrou que os celulares atuais só existem graças ao telescópio Hubble, que possibilitou as lentes dos aparelhos de hoje. “A ciência espacial gera muito inovação que é absorvida pela indústria”, explicou.

 

Empenhada na divulgação científica, em 2016, Duilia fundou a Associação Mulher das Estrelas (AME), com foco nas escolas públicas. Desde que começou, já falou para mais de 30 mil jovens e crianças.

 

Inspiradas pela astrônoma, Teresinha de Souza e Rojuhercymar Boreli, professoras da rede estadual pública de ensino de Minas Gerais, criaram, junto com outras sete mulheres, o projeto Mulheres de Estrelaspara levar astronomia para crianças, jovens e idosos. Com cinco telescópios, o grupo, que atua nas cidades de Patos de Minas e Rio Parnaíba, promove sessões de investigação do céu. A proposta é estimular o interesse por Astronomia e também incentivar a presença de mulheres em todos os setores da sociedade, em especial, na ciência. Por esta razão, as professoras viajaram para Brasília, para prestigiar a palestrante. “Duilia é inspiradora para nós. As mulheres podem estar em qualquer lugar”, destacou Teresinha.

 

Para a Duilia de Mello, é na difusão da ciência que está o ponto de inflexão para as questões da atualidade. “Não é fácil transformar conceitos complexos em termos simples. É uma questão de se habituar a falar em público”, avalia. Para ela, o surgimento dos youtubers, especialmente os que são cientistas e os que são ajudados por cientistas, pode ser um canal de divulgação. “Devemos usar a mídia social para divulgar para a população”, defende.

 

MESTRES DE CERIMÔNIA – Dois estudantes com deficiência visual ficaram a cargo da apresentação da cerimônia: Carolina Dias Sousa, graduanda em Música, e Mateus Pereira, que cursa Ciência Política.

Carolina Dias Sousa e Mateus Pereira, que têm deficiência visual, foram os mestres de cerimônia. Foto: André Gomes/Secom UnB

 

Estudante do quarto semestre, Carolina quer ser professora. Ela aproveitou a oportunidade para dar dicas aos calouros presentes: “Existem muitas matérias interessantes para fazer na Música, como canto coral e canto suplementar”, disse. Além disso, convidou a comunidade acadêmica a visitar o departamento, onde é possível ouvir estudantes treinando instrumentos.

 

Mateus também compartilhou a sua experiência universitária com os presentes. “Vou dar uma dica muito importante: não saiam do fluxo, por favor”, brincou. O estudante explicou que o fluxo é uma recomendação do curso de matérias que devem ser feitas a cada semestre, mas que fica a critério do estudante seguir ou não. “É a diferença de passar quatro ou seis anos na universidade. Não que não seja bom estar aqui, mas é um tempo que você pode, por exemplo, cursar um mestrado”, reforçou.

 

UNIVERSIDADE GRATUITA, PÚBLICA E INCLUSIVA – O grupo Rodas e Danças abriu o evento com apresentação artística de expressão corporal, com integrantes cadeirantes e não-cadeirantes. O projeto é resultado de ação extensionista da UnB desenvolvida na Faculdade de Educação Física (FEF). “Um projeto que estimula auto-estima, saúde, interação”, destacou a mestre de cerimônias Carolina Dias.

O grupo Rodas e Danças abriu o evento com apresentação artística com integrantes cadeirantes e não-cadeirantes. Foto: André Gomes/Secom UnB

 

A reitora Marcia Abrahão e o vice-reitor Henrique Uelva deram as boas-vindas aos estudantes. Uelva destacou estar especialmente emocionado em recepcionar os estudantes do noturno, turno em que leciona. “A UnB tem avançado muito nos processos de atendimento dos cursos noturnos”, comentou.

 

A reitora Márcia Abrahão reforçou as boas-vindas aos novos estudantes. “A UnB é uma das melhores universidades do Brasil e da América Latina. E agora vocês têm a responsabilidade de manter a qualidade do que recebem aqui. A UnB foi criada para ser protagonista no país e vocês estão com o bastão para dar seguimento a isso. Vocês são o futuro do país”, disse.

 

O vice-reitor destacou os atributos da UnB, uma universidade gratuita, pública e inclusiva. “Quando falamos de gratuidade, significa que a condição econômica não é um critério de acesso à universidade. Todos têm as mesmas possibilidades de ingressar, independente da situação econômica”, frisou. “É pública porque adota critérios republicanos e é inclusiva porque, só assim, a universidade terá a mesma diversidade que há na sociedade, para que sejamos efetivos na maximização das ações da universidade na sociedade”, detalhou.

 

Caloura de serviço social, Ana Catharina Almeida Rocha, 18 anos, esteve presente na palestra da astrônoma Duilia de Melo junto com o pai, José Aurélio. Ela está ciente da responsabilidade social que a profissão que escolheu carrega. Pretende ficar sempre em contato com a sociedade e quer trabalhar com crianças e adolescentes. “Quero me graduar e fazer mestrado”, comentou.  

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